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ATEA Ética

Ética

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Introdução 

"Se Deus não existe, tudo é permitido."

A citação de Irmãos Karamazov, romance clássico de Dostoiévski, é usada com frequência em tom acusatório contra os ateus. É claro que ainda que a afirmação fosse verdadeira (e não é), nada provaria sobre a existência de qualquer deus, quanto mais o deus específico da mitologia cristã. Ironicamente, há evidências de que Dostoiévski sofria de epilepsia temporal, e que portanto o que ele descreveu como "experiências com Deus" eram apenas crises da doença. Mas voltemos ao ponto.

Grande parte dos ateus tem severas críticas aos sistemas éticos religiosos. Embora a crítica à religião não seja objetivo da ATEA, é importante apontar e detalhar as críticas aos sistemas éticos religiosos para deixar claro como as acusações religiosas quanto à falta de ética dos ateus não fazem sentido. Esse é um dos objetivos desta seção.

Também é verdade que, ao não aderir aos sistemas éticos religiosos, cabe aos ateus apresentar outros sistemas e mostrar sua superioridade, sob pena de dar razão, ainda que tangencialmente, às críticas que recebemos. Sabemos que o indivíduo médio pouco sabe de filosofia moral, e não parece que o ateu médio tenha um especial conhecimento sobre essa delicada matéria. Se ele não tem esse conhecimento, está pobremente guiado para fazer julgamentos morais.

Por isso, esta seção servirá também para expor ao menos as idéias principais de diversos sistemas éticos seculares. Não só para informar os ateus, mas a todos. O mundo seria muito, muito melhor se esses sistemas fossem conhecidos e utilizados.

Uma excelente coleção de textos a respeito do tema pode ser encontrada em http://www.infidels.org/library/modern/nontheism/atheism/morality-and-atheism.html.

 

O dilema de Êutifron

Êutifron é o nome de um diálogo de Platão que conta a história do personagem de mesmo nome. A história começa com Sócrates contando ao protagonista que estava sendo processado por corromper a juventude através da invenção de novos deuses e da negação da existência dos antigos. Não poderia haver melhor pano de fundo para criticar a moral lastreada nos deuses.

Êutifron então lhe conta que um de seus empregados havia cometido um assassinato, e por isso seu pai o acorrentou enquanto ia a Atenas perguntar a um adivinho o que fazer com o criminoso. Mas sem comida ou cuidados, o assassino morreu. E Êutifron estava processando seu próprio pai pela morte do assassino. Sua família alega que o homem que processa o próprio pai é "ímpio". "O que mostra quão pouco eles eles sabem o que pensam os deuses sobre piedade e impiedade", diz Êutifron.

Sócrates então pergunta se Êutifron estava tão certo assim sobre as matérias religiosas e as coisas pias e ímpias a ponto de ter certeza do que estava fazendo: afinal, a impiedade poderia mesmo ser a de processar o próprio pai. A discussão então gira a respeito da origem dos mandamentos divinos -- ou seja, da própria moralidade. O que, afinal, faz uma ação ser pia ou ímpia? Êutifron responde que piedade é fazer o que agrada aos deuses, e impiedade é fazer o que lhes desagrada.

Mas Sócrates insiste, perguntando se "o pio ou sagrado é amado pelos deuses porque é sagrado, ou é sagrado porque é amado pelos deuses". E este é o xis da questão. Utilizando a terminologia moderna, o que Sócrates pergunta é: uma ação é boa porque os deuses assim o determinam, ou os deuses determinam essa ação porque ela é boa? Em outras palavras, os deuses simplesmente reconhecem um padrão pré-existente do que é bom e do que é mau, e então o adotam, ou são os próprios deuses que criam esse padrão por um fiat?

Se os deuses criam o padrão de bondade ao seu bel prazer, então eles poderiam, se assim quisessem, determinar que o estupro e a tortura são atos de bondade. No entanto, se eles não querem ou não podem fazê-lo é porque existe um padrão de bondade que é externo, anterior e independente dos deuses. E ambas as alternativas são devastadoras para a proposta de moral baseada em mandamentos divinos.

Se os padrões morais emanam dos deuses, então nada impede que amanhã, quando acordarmos, o estupro tenha subitamente se tornado um ato perfeitamente moral, devido a um inexplicável comando divino. Se os religiosos admitirem que isso é possível, são eles que nos devem explicações sobre seus padrões morais, e não o contrário. Que moral é essa que poderia admitir absolutamente qualquer coisa? No caso de a moral emanar de um deus, há um problema adicional: seria uma afirmação sem sentido dizer que esse deus é bom, já que é ele próprio quem define o que é bom e o que não é. Ele estaria na mesma situação de um ditador que "define" que matar opositores é bom, então os mata e depois é louvado por ser bom.

Por outro lado, se afirmarem que uma mudança nos padrões morais por vontade divina seria impossível, os teístas ficam presos à segunda alternativa, de que os deuses apenas reconhecem o que é bom. Nesse caso, não há necessidade de deuses para haver moralidade e padrões morais, e o papel das divindades na moral é o de meros apontadores, que dizem: "vejam, eu percebi que aquilo ali é moral." Em outras palavras, a moral não se baseia nos deuses ou sua vontade. Portanto, não há sentido algum nas propostas de sistemas morais baseados na religião, e menos ainda nas críticas à alegada amoralidade dos ateus.

Críticas à moral das religiões abraâmicas

Religiões abraâmicas são aquelas ligadas à tradição iniciada por Abraão: judaísmo, cristianismo e islamismo. Cristianismo e islã, juntos, respondem por metade das cabeças do planeta, enquanto são judeus cerca de um em cada trezentos indivíduos. A importância histórica e demográfica das religiões abraâmicas justifica que lhes seja dada atenção especial em qualquer análise sobre a religião.

Apesar das particularidades dos sistemas morais do cristianismo, judaísmo e islamismo, eles têm diversas características comuns que podem ser analisados em conjunto. A crítica central que se faz a esses sistemas é o fato de que a motivação para suas injunções morais está largamente ou totalmente desconectada do sofrimento, da felicidade e da liberdade das formas de vida que deveriam proteger. Em termos mais simples: a moral religiosa serve para agradar esse suposto deus, e por isso não tem obrigação nenhuma de acomodar os interesses dos mortais, sua busca por realização e sua aversão à dor. 

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